quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Lar Interior

Ela havia se esgotado das pessoas. Não queria saber como seus amigos estavam, se estava tudo bem com suas respectivas famílias. Não queria saber se seu ex estava ou não seguindo bem em frente. Não queria saber se sua família precisava dela. Não queria saber dele, dito cujo, que ainda não tinha nome para a participação na vida dela. Não queria saber de política. Ah não, longe disso. Nunca fez questão na verdade. Não aguentava essa pressão que as pessoas ao seu redor, sem querer, faziam ela passar. Ela cansou de reality shows porque as pessoas sempre mostravam a mesma coisa. O lado superficial. O lado egocêntrico. Ela via o pior das pessoas num reality show, e o engraçado é que antes se divertia com isso. Ela chegou a um ponto de querer seu tempo. Ela estava se perguntando muito quem ela era em meio a uma multidão de pessoas.

Pois bem. Ela viajara de avião para onde sempre quis ir. Sidney. Austrália.
Largou o celular no meio de mil objetos frágeis em sua bolsa. Colocou seu melhor biquíni. Sorriu. Mas não um sorriso farto de satisfação. Um sorriso mais calmo, lento e sossegado. Fez uns exercícios de alongamento. Algo que sempre se impedia de fazer por preguiça ou por esperar alguém a acompanhar.

Os dedos de seus pés brancos se agitavam na areia úmida que recebia o mar verde e limpo com calma. Estava vazio por lá. Uma ou outra pessoa. Mas eram estranhos. Pelo menos eram estranhos. Não saberiam seu nome. Se estava bem ou não ou se gostaria de conversar sobre assuntos que já se repetiam todos os dias. Por um momento ela não precisou sentir que fazia parte de algo maior sem precisar estar bêbada. Por um instante ela olhou profundamente aonde estava.

- Era tudo o que eu precisava. - sussurrou bem baixinho.

O barulho do mar foi música para seus ouvidos. Já não se importava mais com o que pensavam dela. Se havia ou não decepcionado as pessoas. Se estava pronta para uma faculdade. Se tinha dinheiro o suficiente para se sustentar. Só de estar ali, era um sentimento completo. Queria que nunca acabasse. Queria que aquele fosse o céu, onde todos querem ir. Pelo menos os que acreditam. Acreditar. Sim. Ela não precisava acreditar ou entender nada naquele momento. Seriam verbos ocos e sem significado em seu vocabulário.

Uma paz interior profunda. Não queria chamar de Sidney, ou de praia, ou de Austrália... Queria chamar de lar. Seu lar interior. O lar que gostaria de estar sempre para esquecer o que ficou pra trás. Sem depender de ninguém. Só de si.

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